Turma Formadores Certform 66

Tuesday, February 03, 2026

Carta a quem sente ódio pelo que fizeram aos Orelhas

Também eu estou com raiva. Também eu estou com ódio. Quem sente ódio perante algo assim não é mau; está vivo. Mas há um ponto a partir do qual o ódio deixa de ser reação e passa a ser continuação. Não vamos ser piores do que quem fez o que fez. O problema do ódio é que traz uma sensação de clareza. Tudo parece simples: bons de um lado, monstros do outro. O mundo não funciona assim. De cada vez que fingimos que funciona, alguém acaba esmagado no meio. O ódio quer atalhos; a justiça não. Eu não quero sentir a excitação suja de desejar a destruição de alguém. Há uma linha fina entre querer que haja consequências e querer que haja aniquilação. Essa linha é o que nos separa do que condenamos. O que fizeram ao Orelha exige consequências reais, exige investigação séria, exige responsabilização, exige que o sistema funcione, exige educação, acompanhamento, prevenção, sensibilidade. Não exige linchamento digital, ameaças às famílias. Muito menos exige a fantasia idiota de que a violência se resolve com mais violência. O ódio em roda livre não protege os indefesos; treina novos agressores. O Orelha não era um símbolo de vingança; era um símbolo de convivência, de comunidade. Transformar a sua morte numa licença para o pior seria uma forma de traição. Temos de metamorfosear a raiva em lucidez. Temos de fazer do ódio uma habitação transitória, jamais uma residência permanente. Temos de querer justiça sem abdicar de humanidade. Quando nos tornarmos cruéis “pelas razões certas”, já perdemos tudo. O Orelha não precisa que nos tornemos monstros em seu nome. Precisa que façamos tudo para haver menos monstros no mundo. 

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