52 anos depois
Era então uma noite fria de Abril. Uma noite igual a tantas outras. A rádio ia debitando a música de então, até que surgiu algo inesperado. Canções que estavam proibidas pelo regime anterior começaram a soar. "Grândola, vila morena" era uma delas. Que estava a acontecer. Quem saiu cedo, madrugada fora para ir trabalhar, percebeu que estavam a acontecer movimentações que não eram usuais. "E depois do adeus" soltou as amarras. Os militares estavam na rua. Algo estava a acontecer. Era um jovem estudante nesse tempo, e quando passei para os meus estudos vi muita tropa posicionada nas ruas e junto à câmara do Porto. Quando cheguei à instituição que então frequentava logo ouvi falar em revolução, mas nada se sabia de concreto. No Porto, só à tarde é que tivemos a confirmação do que estava a acontecer. Ainda não havia a velocidade da internet. Os estudantes e muito do seu corpo docente juntaram-se à festa. Depois foi o povo. E Abril saiu à rua. Gente desempoeirada, feliz, que falava de tudo e de nada, que simplesmente queria falar fosse do que fosse, gente ávida de Liberdade. Gerações forçadas a um silêncio esmagador tentavam agora sofregamente respirar Liberdade. Ao fim deste dia havia a confirmação de que o regime fascista tinha caído. E todos respiraram de alívio. Mas a estrada que se abria e que parecia plana e de veredas verdejantes afinal era escarpada, cheia de escolhos que feriam o caminho. Mas 52 anos volvidos, valeu a pena. E agora que forças extremistas de direita têm como propósito destruir o regime e a Democracia, é tempo de cerrar fileiras como à 52 anos atrás e evitar o retrocesso que aconteceria a este país se tais pessoas assumissem o poder. Começa-se pelo mais básico, a entrada nos órgãos de soberania, depois põe-se em causa a Constituição, 50 anos depois da sua aprovação, e quiçá, mais tarde, o poder. Recorram à História e vejam o que aconteceu na estratégia tolerante dos alemãs face aos nazis de Hitler, ou dos italianos face aos fascistas de Mussolini. Costuma dizer-se que a História se repete, mas eu acrescentaria que nunca da mesma maneira. Mas por isso temos que estar vigilantes. As nuvens negras pintam o horizonte mas sejamos o vento que as varre do céu. Viva a Liberdade! Viva a Democracia! Viva o 25 de Abril!


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